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Um país de pernas para o ar

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Percebemos que um país está de pernas para o ar quando um delegado de saúde e a DGS (Direcção-Geral de Saúde) permitem a realização de um jogo de futebol com uma das equipas em inferioridade numérica por causa de vários casos de covid em vez de cumprirem a sua função, transferindo a protecção da saúde pública para os intocáveis homens do futebol. Percebemos que o país está ao avesso quando se gasta rios de dinheiro na polémica vacina contra a covid-19 em crianças e adolescentes esquecendo que o Programa Nacional de Vacinação do Estado já devia ter financiado há anos as vacinas contra a varicela, hepatite A, meningite de alguns serogrupos e rotavirus (somente gratuita para grupos de risco), que são fortemente recomendadas por pediatras e médicos de família. Percebemos que o PSD está do lado contrário de uma democracia quando os seus militantes elegem alguém que parece uma muleta do Governo e sonha com um bloco central após as legislativas em vez de fazer a necessária oposição. 

Façam as vossas apostas

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Aproximam-se tempos de grandes decisões no país, é hora de fazer apostas responsáveis pois as possibilidades de ganho são grandes. Fazem-se prognósticos pelo combate de artes marciais entre o ex-juiz Rui Fonseca e Castro e o director nacional da PSP, Magina da Silva. Avalia-se, em casa, na companhia de um balde de pipocas, o combate político pela liderança do PSD na categoria "peso-pluma" entre Rui Rio e Paulo Rangel, e o outro combate na categoria "médio pesado" entre "Chicão" e Nuno Melo, do CDS. Existem ainda "super odds" acima da média para apostar no desafio entre o Governo e os partidos de esquerda pela aprovação do Orçamento de Estado e um prémio para quem acertar se será a CP ou a TAP a rebentar com o erário público. As estatísticas ajudam-nos a apostar quem será o próximo a fugir do país, quantos médicos e enfermeiros sairão do SNS e os valores máximos a que vai chegar o gasóleo, gasolina, gás e electricidade. 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (II)

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Fiquei emocionado com tanto altruísmo de uma chusma de gente que decidiu que as férias dos portugueses devem ser passadas no próprio país, uma espécie de "vá para fora cá dentro" pelos destinos de campo e territórios de baixa densidade para ajudar a economia e combater o desemprego. São os mesmos que antes da pandemia preferem colocar fotos nas redes sociais de remotas praias azuis turquesa em vez de decrépitas aldeias transmontanas que sofrem há muito tempo com a desertificação, desemprego, falta de acessibilidades e o envelhecimento da população. E por falar em turismo, os empresários de hotelaria e restauração que reabriram os seus negócios  prometem agora receber bem o cliente português, longe daqueles tempos em que o tuga era aceite com um sorriso amarelo em detrimento do estrangeiro com carteira recheada, acolhido com um sorriso de orelha a orelha. Parafraseando Luís de Camões, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".   

Um país de mansos

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Em França, uma revolta popular estrondosa por causa do aumento das taxas sobre os combustíveis juntou a exigência de melhores salários à menor precariedade no emprego. Em Portugal, um país de brandos costumes, já ninguém liga aos constantes aumentos do preço dos combustíveis, ao garrote fiscal, ao aumento do custo de vida nem ao preço excessivo da electricidade e do gás. A preocupação é diminuir o IVA nas touradas, indignarmos por causa daquele penalty não assinalado ou fazer uma rebelião de empurrões e atropelos em superfícies comerciais por causa dos preços do "Black Friday"! Já nem há motins como antigamente, pois na última greve dos guarda prisionais os reclusos não se indignaram com a lotação nas prisões nem com os ratos, mas com a falta de tabaco nas "cantinas"! 

Milhões a rodos

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O provérbio "o que é demais, é moléstia", serve perfeitamente para retratar a alienação geral que se tornou esta vitória da Selecção Nacional de futebol. Mas já que estamos numa onda de amor à pátria, só quando nos convém, claro, reparei que parece jorrar milhões de euros por todo o lado, desde o impacto que esta vitória trouxe à economia passando pelo encaixe da Federação Portuguesa de Futebol, dos seus patrocinadores, dos prémios dados aos atletas, até às mais que prováveis transferências que vão gerar lucros aos agentes de futebol. Aproximando-se uma possível  multa aplicada ao país pela Comissão Europeia por incumprimento da meta do défice entre 2013 e 2015, proponho uma vaquinha entre estes heróis do pontapé na bola, para que não sejam os mesmos que andam constantemente de bolsos vazios, de cachecol e bandeira na janela, a pagar as contas públicas.

Cantemos todos

Farto de tanta desafinação entre políticos, farto de ruidosos justiceiros travestidos de juízes que acusam qualquer um de "corrupto", recebi uma melodia para os meus ouvidos: três anos depois do fado, a UNESCO considerou o cante alentejano Património Cultural e Imaterial da Humanidade.  O Cante é um código genético alentejano, de uma região desprestigiada, esquecida pelos governantes, desertificada, mas amada e cantada nas tabernas de boa comida, nos campos bem cultivados e na labuta árdua das minas. Cantemos todos, em coro, pausadamente e saboreando a vida, porque é com orgulhos destes que ainda vale a pena ser português. 

Deportações urgentes

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  A petição que exige a deportação para fora dos Estados Unidos de um jovem com voz de cana rachada a que chamam "cantor", é um dos bons exemplos de cidadania do povo americano que é salutar copiar. Aproveitemos o embalo e desterremos com urgência aquelas personagens que indirectamente ajudaram a cavar o buraco em que se encontra o país: os mentores das fraudes bancárias no BPN e BPP, o político oportunista, o ruinoso gestor público, o especulador imobiliário, o empresário ganancioso e sem escrúpulos, o chico esperto que enche o bolso à custa do erário público  e os corruptos que se infiltram nas Câmaras ou chafurdam em processos de submarinos, sendo salvos por indignos advogados e magistrados. 

Profissão de sucesso

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  Dentro das novas profissões emergentes destaca-se uma - o participante de reality shows. Este espécime salta de programa em programa como muda de roupa. Dormem, comem e bebem de graça, proporcionam diariamente grandes números de circo - da estalada ao insulto - e habilitam-se a ganhar milhares. Como grandes empreendedores que são, gravam um disco assim que saírem da clausura ou publicam um livro, e dentro de algum tempo juntam-se à nata da sociedade em banquetes de caviar. Este estranho mundo do parasitismo ainda tem o condão de criar emprego indirecto: os comentadores, os analistas e os alcoviteiros das revistas cor de rosa.

O monte alegre

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  A criança, na sua doçura, chama-lhe "monte alegre". De facto, bem parece: um castelo encantado, barragens arrebatadoras com pequenas aldeias rodeadas de água por todos os lados, o rio Cávado, a Serra do Larouco, a esmagadora beleza do Parque Nacional da Peneda-Gerês,  o misticismo do Padre Fontes em Vilar de Perdizes e das "sextas-feiras 13", e a descoberta do   Santo Graal - a neve, que faz sorrir o petiz. Montalegre é assim, uma espécie de Éden, e se a vida nunca foi fácil nas Terras do Barroso não se lamenta pela interioridade nem se suplica nada ao poder central pois sabem que o caminho é  promover o turismo e a arte de bem receber.                                                                                     

Azedume angolano

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Não percebo este azedume angolano em relação ao meu país, talvez os seus cidadãos e altos dirigentes se achem judicialmente inimputáveis. Deixem o Ministério Público fazer o seu trabalho, parem de ser vingativos e de terem a presunção de que são o abono de Portugal . Não esqueçam que existem outras economias emergentes que podem ser nossos parceiros estratégicos. Podemos estar na penúria mas não queiram ser accionistas da nossa dignidade, pois não aceitamos moralismos em forma de editoriais de jornal . Ainda somos uma democracia não militar que permite o associativismo, a liberdade de expressão, o direito aos sindicatos, à greve, uma soberania que despreza o trabalho infantil, a repressão policial e que não concentra a riqueza em meia dúzia de amigalhaços do Governo.

O sonho

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Sonhei que o povo que adora futebol e novelas tinha-se revoltado, insurgido nas ruas contra a corrupção que grassa no país e abrange todos os sectores de actividade. Aproveitando a cobertura mediática da realização de eventos desportivos, o povo critica o despesismo do uso de dinheiros públicos na construção de estádios e pavilhões, futuros elefantes brancos. Contra os banqueiros que cavaram buracos na economia nacional e que foram tapados com o erário público, contra o chico espertismo político, contra a exterminação do estado social e contra a ignorância que entra em casa através de programas televisivos que promovem a estupidez em forma de "reality shows" , pois agora até os queques trajam à forcado . Acordei, afinal não era em Portugal, era no Brasil...  

A febre das raspadinhas

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    Não tenho nada contra quem quer tentar a sorte através das raspadinhas, mas quando isso se torna um vício tresloucado que se sobrepõe e impede outras necessidades básicas, é caso preocupante. A febre das raspadinhas é uma doença provocada por um vírus compulsivo, que provoca alucinações sobre enriquecimento fácil e pés-de-meia que não são mais nada do que acelerar o esvaziamento do depauperado bolso dos portugueses. Gaspar e raspar, duas realidades actuais que nos empobrecem com a ilusão de que tudo vai mudar para melhor.

A Torre de Babel

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    Não há dúvida de que a bandeira portuguesa hasteada de pernas para o ar nas comemorações oficiais do 5 de Outubro é mesmo o espelho actual do país. É a estapafúrdia abolição de mais um feriado nacional, é a ocupação e capitulação perante a troika, é um pedido de auxílio para quem possa dirigir esta Torre de Babel em que o país se tornou, e que se alastra ao federalismo europeu. Aceitam-se candidatos competentes, honestos, de preferência sem currículo político-partidário ou seguidismos.

Prioridades

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  Depois de inúmeros e fastidiosos directos televisivos da nossa selecção de futebol, do rico parque automóvel dos seus jogadores, do vergonhoso custo diário em terras polacas, dos seus inflamados egos e manias, decidi mudar de canal. Em boa hora o fiz, pois nauseado com tanta alienação encontrei alguém a quem chamar verdadeiramente de heróis: homens e mulheres que partem para fora do país sem pose de estado, à procura de trabalho, com o espectro da incerteza e a despedirem-se no aeroporto de familiares lavados em lágrimas. Lembrei-me das palavras ridículas do primeiro-ministro incentivando a emigração, que o desemprego era "uma boa oportunidade", e então pensei: quantos milhões poderiam ter sido canalizados para fomentar o emprego em vez de se terem construído estádios de futebol por ocasião do Euro 2004?!

"Pimba" revisitado

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      Aquele que é considerado um dos melhores músicos de sempre fez recentemente 65 anos mas pouco destaque teve no nosso país. David Bowie é um artista completo, inovador da sua imagem e da sua música que ainda hoje se mantém actual. Revolucionou o rock, a cultura pop, o punk e a arte, mas parece não ter influenciando uma geração portuguesa "amorangada", sem referências, que idolatra personagens a que a comunicação social chama de "cantores" mas que apenas vão mexendo os lábios, figuras cómicas como Bieber, o clã Carreira e tantos outros que deturpam o conceito de música e poluem o ambiente sonoro com esta espécie de "pimba" revisitado para meninos do papá.

Desconcertação laboral

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  A assinatura do "Compromisso para o Crescimento, Competitividade e Emprego" não é nada mais do que um beijo de morte para quem efectivamente trabalha. Parece que abolir a proposta de meia-hora de trabalho desculpabiliza uma série de atrocidades laborais: a diminuição do custo do trabalho, das horas extraordinárias através do enigmático banco de horas, o prolongamento desse mesmo trabalho, a redução do descanso, a duração do subsídio de desemprego e as indemnizações por despedimento. Nunca despedir foi tão fácil pois agora também é possível dispensar alguém por inadaptação, pela redução continuada da produtividade ou da qualidade do trabalho prestado. Por isso, proponho que a classe política que nos tem governado se auto-avalie e se é merecedora de continuar em funções ou é despedida por tais pressupostos.  

Estranha forma de vida

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  Parece ser um país silenciado, domesticado, como aquele que o ex-assessor e consultor político Fernando Lima deseja . Ironicamente, o único que faz oposição ao Governo parece ser Cavaco Silva apesar da sua contradição ao aprovar o Orçamento de Estado de 2012. É dos poucos que alerta para a situação "explosiva e intolerável" do país devido à violação da "equidade fiscal", da falta de "diálogo entre o Governo e os parceiros sociais" e das "políticas desastrosas dos dirigentes da União Europeia". Um povo manso, como uma oposição política resignada, apagado como o sinal analógico da televisão, à espera que o incompetente Governo e os seus lacaios de serviço levem este barco ao fundo.  

Um político conto de Natal

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  Ebenezer Scrooge é um velho avarento retratado por Charles Dickens na obra "Um conto de Natal" que não quer saber do Natal para nada, quase exigindo que os seus empregados trabalhem nesta data. O actual primeiro ministro parece ter copiado o estilo do senhor, é carrancudo, arrogante, exigindo que se trabalhe mais meia hora, impondo sobretaxas sobre o subsídio de Natal, extirpando a função pública e os pensionistas. A não ser que os fantasmas de Scrooge decidam assombrar este governo para a sua obrigação social ou vamos ter o pior Natal de sempre. Gostava de vê-lo chorar copiosamente como fez a ministra italiana quando anuncia o aumento das taxas moderadoras na saúde, quando eliminar alguns feriados, quando obriga ao pagamento das ex-SCUT, quando aumentar a taxa do IVA, quando rebentar com a economia e aumentar o desemprego.

Terra das multas

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    Fui à "Terra dos Sonhos" em Santa Maria da Feira para sair deste país de pesadelo, para fazer feliz o que de melhor existe no mundo, as crianças. Esperava encontrar a conhecida hospitalidade nortenha e, indirectamente, ajudar a paupérrima economia local. Em vez disso, encontrei a zelosa acção das autoridades, não que tivesse vislumbrado algum polícia num local em que a presença de 5000 pessoas assim o exigia, mas a vergonhosa caça à multa desenfreada, à socapa, num espaço manifestamente insuficiente para o estacionamento de viaturas e que decididamente afugentará futuros visitantes.

O fado grego

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A Grécia, berço da civilização ocidental, do misticismo, da mitologia, da alegria contagiante de viver, de ser livre - exemplificado na estória cinematográfica de Zorba - está à espera que surja um Aristóteles moderno que endireite a matemática das contas, um novo Sócrates que os elucide e os motive para outra filosofia de vida, ao som de uma melodia de Vangelis. Inevitavelmente, a Grécia é uma espécie de oráculo para Portugal, a que acresce a semelhança do seu clima, do sol, do seu povo, do turismo, da sua relação com o mar. Apesar de acreditar no potencial destas duas grandes nações, quando penso no fado grego sinto um arrepio enorme a percorrer-me a espinha por angustiar o futuro.