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Fogos em roda livre

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Os fogos que lavram no nosso país parecem uma etapa saída da Volta a Portugal em Bicicleta, percorrendo as mais bonitas paisagens. Começaram em Ponte da Barca, atravessando parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês, deram um salto ao Alvão e dirigiram-se ao Centro, para a serra da Lousã, Açor e Gardunha, acabando a prova com a subida à Torre, em pleno Parque Natural da Serra da Estrela. O fogo foi claramente o vencedor da última edição, apesar dos bombeiros e populações terem ganho alguns contra-relógios e metas volantes, salvando vidas e bens materiais, muito por culpa dos directores desportivos que nem sempre coordenaram bem as operações.

O Bailinho da Madeira

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Só mesmo num país como este é possível arder mais de 5000 hectares no arquipélago da Madeira, aproximando-se do valor total de área ardida no continente, no mesmo período, enquanto o presidente do Governo Regional, no intervalo de um mojito, mergulhava nas águas cálidas de Porto Santo, após passear nos areais dourados e macios ao mesmo tempo em que o fogo ameaçava povoações. Simultaneamente, no Machico, o executivo madeirense não se opôs à realização da queima dos "Fachos", uma tradição que implica tochas, fogo preso  e uso de material pirotécnico, numa total falta de respeito e solidariedade para com os bombeiros que combatiam o incêndio no outro lado da ilha, pois afinal o que interessa é continuar a dançar o folclórico Bailinho da Madeira.

Terra maldita

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O Centro de Portugal continua a ser uma terra maldita, o outrora Pinhal Interior está reduzido a cinzas fustigado por incêndios ano após ano. Dizem que estas tragédias acontecem pelas terras estarem despovoadas, pela falta de limpeza da floresta pejada de eucaliptos e pinheiros. No entanto, às vezes parece que o teatro de operações transforma-se numa fogueira de vaidades e patentes onde toda a gente anda descoordenada. Mesmo procedendo à gestão de combustível prevista na lei e à afinação da rede de emergência nacional, SIRESP, as populações continuam abandonadas à sua sorte convertendo-se em agentes de Protecção Civil forçados.

Nunca mais

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    Quase um ano depois daquele maldito 17 de Junho, em Pedrógão Grande, importa trabalhar para que a tragédia não volte a acontecer, mas que não sejam palavras ocas como os fogos que se seguiram, em Outubro, na região Centro, trataram de comprovar. Nunca mais transformem as populações em Protecção Civil, enfrentando os fogos, nem convertam comandantes de bombeiros em arguidos suspeitos de homicídio por negligência. Nunca mais digam que a culpa foi da descarga eléctrica, justificando as decadentes políticas públicas que têm queimado os territórios mais desfavorecidos. Nunca mais sejam ingratos, dar uma pensão miserável a um bombeiro que ficou inválido naquele inferno. Nunca mais tentem disfarçar as injustiças económicas e sociais desta gente, o desprezo, confirmado pelo facto de, passado todo este tempo, muito dos afectados pelos incêndios ainda não viram estabelecidos os serviços de telecomunicações e alguns desalojados continuarem a viver em tendas.

Inferno de Outubro

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    Quatro meses após os catastróficos incêndios de Pedrógão Grande pensou-se que o inferno não ousaria voltar, puro engano, o mesmo regressou em  Outubro e espalhou-se pelo norte e centro do país. Por muito que se goste deste Governo, algo está a falhar quando são as populações que se transformam em Protecção Civil, abandonadas e enfrentando os fogos. Num país que só se preocupa com Lisboa e Porto, que atrasa a sua Reforma Florestal, que refloresta terrenos com eucaliptos visando o lucro comercial, está sujeito a entrar em combustão e a sumir do mapa. Fala-se de quem ganha com os fogos: madeireiros, imobiliárias, reservas de caça associativa, de empresas privadas contratadas para combater incêndios, mas como diz o outro no sketche, "falam, falam, falam, e eu não vejo ninguém a fazer nada"!

Fartos de futebol

Enquanto o nosso maior tesouro, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, ardeu nos últimos dias mais do que durante todo o ano de 2008, o País continua a acompanhar a saga histérica acerca do futebol e das penalidades duvidosas. Como não bastasse, até títulos "honoris causa" são atribuídos aos futeboleiros interrompendo emissões televisivas para colocação em directo da respectiva entronização! O País, como a floresta, vai ardendo nesta fogueira de vaidades e não vai aparecendo ninguém com outro tipo de méritos que nos possa tirar deste marasmo intelectual. Com a conivência da comunicação social, por momentos esquece-se a crise e o desemprego, substituídos por valores desinteressantes e vulgares. Esta obsessão pelo futebol mostra a tacanhez dum povo que outrora foi esplendoroso e artífice de grandes descobertas.